Archive for January, 2011
Inspirado por/em resposta a Ainda Morremos por um Homem
Somos senhores de nosso universo. Cada homem (no sentido masculino da palavra) é rei de seu próprio castelo, é controlador absoluto daquilo que ele considera seu: a bola, o computador, a casa, a empresa, o mundo. É nosso. Melhor: é meu, ou é seu, nada nunca é dividido num mundo onde o controle é o objetivo. Mas fraquejamos.
Em cada buquê de flores que levamos, em cada chocolate comprado, em cada jóia e cada elogio. Fraquejamos, sentimos falta, queremos agradar, construir mais um império ao redor delas, só para que seja um presente. Somos românticos, somos distantes. Somos nós mesmos e todos os outros, a rédea e a rede, o carinho e a bronca, o mal e o bem, o querido, o desejado, o malquisto, o fraco, o incompleto…
Somos a outra metade.
Elas queimaram sutiãs, fizeram revoluções. Podem votar, ter empresas, filhos sozinhas, estruturas que antes nos eram reservadas: nós mudamos nosso impérios para que elas pudessem ter os delas. E tantas mulheres o fizeram: conquistaram mais do que muitos homens sonhavam, tem impérios, rédeas e redes, belezas e fraquezas, espinhos e perfumes, venenos e panacéias. Elas se tornaram iguais a nós. Só para continuarem sendo exatamente o que eram.
Mas só por que nós continuamos sendo o que éramos.
Quem liga para todos os sutiãs queimados quando elas continuam aos nossos pés? Quem liga para todos os impérios que construímos quando continuamos aos pés delas? E quem liga pra tudo isso quando ainda há aqueles que não tem ninguém nos pés, nem estão nos pés de ninguém? Há milhares de pessoas caindo das margens da sociedade, em pares que simplesmente não faziam sentido quando sutiãs foram queimados. Há milhares de pessoas singulares e solteiras, que não seguem os planos de impérios de qualquer tamanho. Há centenas de exceções para todas as regras e nós, meras partes da coisa toda, querendo decidir se vestidos brancos são damas de ferro ou presentes sublimes, ou definir se carros esporte são necessários ou acessórios?
Nós continuamos sendo metades. Homens (como um sexo) continuam precisando de mulheres (como outro sexo). Essa é a humanidade, a parte biológica e inescapável de tudo. Se você vai se derreter (ou deixar de) por uma menina de piercing, um cara com camisa xadrez, ou por absolutamente nada, isso é para você decidir e lidar. Encontre quem/o que (ou o plural disso) amar e continue a partir daí.
O resto, como dizem, é história.
Humanos… sempre querendo marcar os fatos com sutiãs queimados ou pregos em pulsos. Nossa vã filosofia já foi tão mais capaz…
Eu sou um espião.
Começou como curiosidade: um segredo descoberto, uma senha fácil de quebrar, um lugar fácil de invadir. Eu não roubava nada, eu apenas desvendava segredos de mega-corporações sem rosto. Era empolgante: falhas de segurança por todos os lados, pessoas com quem falar, segredos a serem trocados com outros curiosos – não nos chamávamos de espiões na época.
Foi então que as coisas ficaram mais complicadas: dicas começavam a chegar por todos os lados – a maior parte falsa. E pequenos “presentes” sempre que eu conseguia um segredo ou outro.
Contatos começavam a aparecer em meus emails, convites estranhos em redes sociais, gente que parecia me conhecer desde sempre. Vizinhos novos apareceram, e eu podia jurar que eles passavam tempo demais cuidando do jardim.
Logo ficou claro que eu teria de escolher um lado, ou eu seria dispensável para todos. Primeiro por ideologia: a companhia que poluísse menos, que cuidasse melhor dos clientes, que fosse melhor para o mundo. Mas quanto mais eu descobria, mais parecidas elas eram: corporações cuidam de si, e de mais nada.
Neste mundo, cada um escolhe o seu caminho e nenhum deles é certo: todos estamos jogando o jogo das corporações. As cartas, o tabuleiro e os dados são deles. Resta a nós, peões, nos mexermos.
Alguns colegas (ninguém é amigo de ninguém aqui) decidiram acabar com o jogo: roubam projetos, destroem sistemas. Alguns até “apagam” pessoas. Eu? Eu vou onde os enigmas me levarem.
Eu sei que há muito mais segredos do que eu conheço. E sei que nunca vou saber toda a verdade. É um grande jogo. Talvez grande demais.
Se você não entendeu, isso é parte de um jogo. Não entenda como qualquer coisa além disso.