Eu sou um espião.
Começou como curiosidade: um segredo descoberto, uma senha fácil de quebrar, um lugar fácil de invadir. Eu não roubava nada, eu apenas desvendava segredos de mega-corporações sem rosto. Era empolgante: falhas de segurança por todos os lados, pessoas com quem falar, segredos a serem trocados com outros curiosos – não nos chamávamos de espiões na época.
Foi então que as coisas ficaram mais complicadas: dicas começavam a chegar por todos os lados – a maior parte falsa. E pequenos “presentes” sempre que eu conseguia um segredo ou outro.
Contatos começavam a aparecer em meus emails, convites estranhos em redes sociais, gente que parecia me conhecer desde sempre. Vizinhos novos apareceram, e eu podia jurar que eles passavam tempo demais cuidando do jardim.
Logo ficou claro que eu teria de escolher um lado, ou eu seria dispensável para todos. Primeiro por ideologia: a companhia que poluísse menos, que cuidasse melhor dos clientes, que fosse melhor para o mundo. Mas quanto mais eu descobria, mais parecidas elas eram: corporações cuidam de si, e de mais nada.
Neste mundo, cada um escolhe o seu caminho e nenhum deles é certo: todos estamos jogando o jogo das corporações. As cartas, o tabuleiro e os dados são deles. Resta a nós, peões, nos mexermos.
Alguns colegas (ninguém é amigo de ninguém aqui) decidiram acabar com o jogo: roubam projetos, destroem sistemas. Alguns até “apagam” pessoas. Eu? Eu vou onde os enigmas me levarem.
Eu sei que há muito mais segredos do que eu conheço. E sei que nunca vou saber toda a verdade. É um grande jogo. Talvez grande demais.
Se você não entendeu, isso é parte de um jogo. Não entenda como qualquer coisa além disso.