Archive for May 27th, 2011

27th May
2011
written by Proto

Ela caminhou, os ossos tremendo com o frio da neve. Ao seu lado, a figura alta segurou o capuz para que não voasse. Já andavam há bastante tempo – apesar de nenhum dos dois saberem quanto – quando pisaram na superfície congelada de um lago no centro da floresta fechada. A garota parou imediatamente.

- Está sólido, – a voz da figura encapuzada reverberava, profunda – este gelo nunca derrete.

A menina exitou, mas deu um passo para o centro do grande espelho de gelo. Ganhou um pouco de confiança e chegou ao centro. A figura permaneceu na borda.

- Você não vem?

-Aqueles como eu não pisam em memórias.

Ela olhou para baixo. Pequenos peixes dourados nadavam lentamente abaixo do vidro gélido.

-E o que eu faço?

-Você lembra.

As palavras não faziam sentido para ela. “Lembrar do que?”, passou por sua mente. E o gelo trincou sob seus pés. O barulho foi como um choro, um grito, ao mesmo tempo de desespero e felicidade. Ela ajoelhou-se e viu nas rachaduras seu próprio reflexo.

Mais um segundo e a menina viu uma bola rolando ladeira abaixo na rua de pedras batidas enquanto o gelo cedia mais e água começava a verter. Ela sorriu enquanto via seu aniverásio entre tantos amigos. Olhou para o lado: a água começava a molhar suas calças enquanto ela entregava trabalhos de escola.

Ela esticou os braços, tentando tocar o seu primeiro beijo – agora tão distante – e verteu uma lágrima ao ver o mesmo menino virar as costas pela última vez. Suas mãos tocaram o gelo e sua primeira briga verdadeira: ela agora nadava e via as nuvens passaram por ela em sua primeira viagem, mergulhava ouvindo os ecos de sua primeira declaração de amor.

O fundo do lago era mais claro que a superfície: ela viu cada um de seus namorados, viu os diplomas e deixou a água mais salgada ao enterrar seu pai mais uma vez. Viu os empregos, passou por inúmeros chefes, relatórios e promoções. Ar não parecia ser um problema.

Os peixes ao seu redor se transformaram em um filho, e as pedras no fundo viraram um divórcio. Ela desviou e nadou para o lado, vendo as namoradas do filho e suas madrugadas em claro, doente. Abraçou-se ao ve-lo sair de casa: ela estava sozinha. Fechou os olhos e deixou-se chorar.

Agora mulher, ela abriu os olhos enxarcada e no meio de um campo gramado. As roupas de menina eram agora um longo vestido. Ao seu lado, a figura.

- Satisfeita?

- Sim.

A figura levantou um braço gélido e a tocou no ombro.

A menina abriu os olhos e acordou sobressaltada. Ao seu lado, a máquina de diálise fazia seu som grave e contínuo. Ela deixou as lágrimas escorrerem.

Ela sonhava com ter uma vida para lembrar antes de morrer.